terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

14 de Fevereiro de 1897 – Os claros olhos de Cassandra

Cassandra Flamínia [o nome será explicado a seguir] escreveu [dizem] nove livros: três se perderam, quatro nunca foram editados, de um só resta um exemplar devorado de cupins, dois são de qualidade reconhecidamente baixa e só se fala [na verdade] de um – que à falta de nomes ganhou o nome de Grande Livro das Intenções – e o título engana. As intenções do livro [sem trocadilho] se explicitam na linha primeira – O Futuro beijou-me e foi.

Longe de ser um volume de poemas de amor, a aristocrática Flamínia [moça filha de negociantes de títulos, que pintava aquarelas e tocava violoncelo em sua casa apalacetada] escreveu uma epopeia em 1.444 versos na qual [apesar de não se mencionar em nenhum momento a palavra general, coronel, ou mesmo milico] os leitores vislumbraram o prenúncio da queda do sétimo bastião de um regime de sete.

O país passava [naquele quente fevereiro de 1897] por difícil período. Os Golas Verdes [a desajeitada mas perigosa esquadra de espionagem política] passeavam pelas ruas do Rio, São Paulo e da Cidade Epsilon [a capital]. O General Delgado Salazar derrubara o sistema civil em 1877, e os Generais se sucederam [na verdade foram três generais, dois coronéis, um major e um tenente marinheiro] e naquele mês reinava o Sétimo General de um regime que matava a população, de autoritarismo e monotonia.

Os olhos claros, os cabelos claros, a pele clara da profetisa [não por coincidência (dizem) chamada de Cassandra] inspiraram o contragolpe.

Cassandra Flamínia era albina.

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