sexta-feira, 31 de março de 2017

26 de Março de 1945 – Deus no boteco

Aeliano-Terêncio [desde criança] buscava. A insatisfação [inimiga de quase todos] semelhava ser sua quase amiga – uma presença nem sempre silenciosa e nem sempre sutil.

Um dia decidiu – procurava a Deus. No outro desenvolveu – procurava a Deus por que este lhe daria um sentido. E em mais dois dias arrematou – ele iria encontrar Deus cara a cara para saber o que Ele queria.

Por alguma razão mística ou casual decidiu partir do grande rio que demarcava a antiga fronteira entre o Império do Leste [ou Concertação Demagógica] e a Renovação Mandchuriana [ainda hoje ponto de peregrinação].  Mirou vagamente o Oeste e seguiu.

Perguntaria em cada aldeola se Deus ali estava. Se ficassem embasbacados, tentassem enfiá-lo em camisa-de-força ou disparassem resposta religiosa pronta, seguiria adiante. [Desnecessário dizer que problemas com psiquiatras e a polícia o atrasaram].

Não se sabe ao certo em que aldeia perguntou Deus está aqui? E a resposta veio de detrás:

- Está.

Virou-se para o homem mais comum que tinha visto – entre seus 45 e 60, impossível ser mais preciso – rugas lhe marcavam a lateral do rosto.

Em mesa de boteco frente a frente, Terêncio cuspiu as perguntas de sempre Que sou – de onde vim – para onde... E o homem disse que estava de paciência cheia de ouvir sempre a mesma lenga-lenga. Só queria [ao menos meia hora em toda a eternidade] ter uma conversa e comer umas cocadas bem doces [das quais o boteco tinha grande estoque].

Terêncio falou com Deus – e só falou futebol e praias. 

quinta-feira, 30 de março de 2017

25 de Março de 1922 – A Sociedade da Conquista do Mundo

A Sociedade Secreta Os Quatro Pilares do Pentagrama surgiu hoje, em sessão surpreendentemente pública, no ginásio da Cidade 431 [o Regime Tosco, implantado no ano anterior, numerara as cidades]. Surpreendentemente só para quem não conhecia a Sociedade e sua inata tendência ao Paradoxo.

Que começava pelo nome – basta algum conhecimento de radicais gregos para se saber que penta significa cinco – e portanto o esdrúxulo grupo não poderia ter apenas quatro pilares.

Além das tradicionalíssimas [e um tanto monótonas] metas de Autoconhecimento Interior, Superação Individual e Nível Transcendental de Consciência, a Sociedade tinha propósitos bem mais terráqueos, como o de proporcionar uma distração semanal a seus membros dentro do ramerrão do dia a dia e [o que já não era tão cômico, especialmente para os povos vizinhos] propiciar que o Brasil anexe o mais possível de territórios dos outros países.

Muito já se escreveu [e quanto mais se escreveu menos se esclareceu] sobre a dita Sociedade. Escritores candidatos a best-seller encheram a agremiação de agentes à la 007 e de espiãs de batom vermelho e largos decotes [um contrassenso pois, se é verdade que o grupo tinha muitas mulheres, é mais verdade ainda que a maioria se compunha de irremediáveis nerds].

Creem [os mais realistas e talvez chatos] que a Sociedade não passava de um pretexto para engordar com chá e bolinhos. O que não os impedia de [talvez por tédio] traçarem planos para uma invasão da Europa. Parte deles, por sinal, foi utilizada.

quarta-feira, 29 de março de 2017

24 de Março de 1946 – Tantos erros na cidade

Alguém [não se sabe se o poder supremo] idealizara que a comemoração do Momento Zero devia concretizar-se em 99 vezes 99 festas pelo país inteiro, e esse número sem sentido [foi o que ela falou, o que não lhe deixou de criar problemas com os vizinhos e a SKQN, a Polícia Política] aconteceria a partir do momento em que o quadro com o Produto Bruto mostrasse que o país ultrapassara a qualquer outro, consolidando sua liderança.

- Boboquice idiota para uma Idiotice – escreveu ela em sua coluna que os leitores rasgariam.

Os poetas e principalmente poetisas exaltavam as virtudes campestres, os amores candentes e o heroísmo dos ancestrais. Iúlia Bessa Pessoa-Luís percebia as chaminés que se espalhavam desde o Vale das Siderúrgicas no Vale do rio Gurguéia até as fábricas de pano em volta dos chapadões do Paranapanema. E mais que isso, caminhava em meio às multidões que madrugavam atendendo aos apitos de atender ao trabalho, em galpões ou escritórios-cânions.

Não escrevia coisas de poeta e não parecia uma. Completara cinquenta e mesmo quando jovem nunca fizera o tipo virgem clorótica. As paixões eternas lhe pareciam menos cantáveis que uma garrafa de ácido quebrada ou uma briga de bar [entre operários no meio dos quais vivia e se inspirava].

Agora Iúlia ganhava a honra de figurar no listão de Pessoas Possivelmente Trágicas [era esse mesmo o ridículo nome dado aos inimigos do Regime].

Tantos erros na cidade ­­– disse, e o país percebeu que se tornara urbano. 

terça-feira, 28 de março de 2017

23 de Março de 1761 – A Filosofia dos Inexistentes

Coriolano de Farias-Terêncio teve via absolutamente convencional no nascimento, no estudo e no casamento. [De fato seus biógrafos (talvez com algum excesso de wishful thinking) aventuraram a hipótese de que o caráter conformista de sua vida originou o anticonformismo tonitruante das coisas que falou]. Três dias antes de completar 55 anos de idade voltou-se para a mulher, os três filhos, os dois únicos amigos e a plantação de batatas [que era o que fazia para viver]:

- Se eu não tivesse sido concebido, teria ficado infeliz?

E os próximos 41 anos viram a publicação de dezessete ensaios, cinco compêndios, vinte e três opúsculos sobre temas específicos além de incontáveis palestras e aulas na Universidade dos Saberes Austrais, a instituição de sabedoria que o recém-unificado Potentado do Brasil [que ainda não tinha este nome] fizera para desenvolver a região mais perto do polo, a grande pedra do sapato nacional.

A Filosofia Coriolanística [que tem alguns apupadores, malgrado a consagração majoritária] tem sido acusada de ser um exercício de inutilidade. Os discípulos do Mestre acusam os críticos de serem bobocas que consideram que pensam que só se faz alguma coisa quando se come arroz ou se fabrica filhos. Quanto ao mestre em si mesmo, nada falava, e quando se dignava a abrir a boca, dizia algo como A Vida é Inutilidade, embora possa ser inutilidade divertida.

segunda-feira, 27 de março de 2017

22 de Março de 2002 – A Nerd que abalou o Mundo

Maria Rosita engoliu seu penúltimo pedaço de churros encharcado de leite condensado [antes de se voltar para o sorvete de flocos de chocolate] que constituía o seu café matinal pouco depois das cinco e meia neste dia de hoje. Dormia cedo, acordava cedo e detestava seu nome. Aliás detestava tudo: os dezessete quilos a mais, a mãe cuja finalidade existencial parecia ser dar-lhe carões cotidianos, o pai que decidira ignorar que ela existia, as outras meninas na escola com seus cabelos uniformizados com escovas-penteado que davam na cintura.

Seu único consolo [se é que se pode chamar isso de consolo] eram os amiguinhos da escola – gamers, gordinhos e [contrariamente a ela] sardentos.

Exatamente às seis e vinte e um [a cama estava particularmente grudenta hoje] meditou:

Percebeu que o Poder é real [com seus soldados, fuzis e cédulas de dinheiro] mas sua coordenação é toda não-real – as ordens são passadas por sinais elétricos para satélites, as decisões se baseiam em informações de algoritmos matematizados em placas de circuitos integrados]. Alguns desses sistemas já tinham sido hackeados, com nível de brincadeira maior ou menor.

Pensou: E se alguém interferisse em todos os sistemas, todos ao mesmo tempo?

E naquela cama uma adolescente acima do peso [em duas folhas de papel hoje expostas em museu] começou a elaborar o esquema que cinco anos depois daria origem ao Regime Unificante Regenerativo [na gíria conhecido como Nerd Power] o único regime político do mundo controlado por Nerds.

quinta-feira, 23 de março de 2017

21 de Março de 1831 – A Falsidade Real

Contrariamente ao que ocorre com tantas datas envoltas em brumas, sabe-se que às 13:13 no dia de hoje que Antônio-Carlos Bishkek-Martins [no auditório central da antiga metrópole do Império do Leste] ao ser chamado pegou a maçaroca de papéis [que (desconfiava) aborreceria seu auditório pelas próximas horas] e [antecipando tal aborrecimento] sintetizou um programa e mensagem filosóficos:
- Construiremos aqui uma mentira. Porém tudo é mentira.

Estas palavras [talvez das mais repetidas da história brasileira e mundial] [o que é esperável, pois o Brasil há algumas décadas já é o país mais poderoso do mundo] abrem campanhas, terminam ou começam discussões, servem de frontispício de universidades, frequentemente citadas pela metade ou em contexto distorcido.

O sentido que o jovem e romântico [tinha 25 anos] Bishkek-Martins tinha ao com elas abrir o I Congresso de Realização de uma História Pátria era provavelmente o da necessidade o de se criar uma narrativa para o país a despeito das dificuldades [na versão mais limpa] ou o de inventar um conto da carochinha mirabolante para a dominação de um grupo [desnecessário dizer que são os revolucionários de sempre que o afirmam].

O fato é que pelos dias seguintes os congressistas decidiram com a maior candidez coisas do tipo Precisamos de sete heróis – quem serão eles? Ou Qual foi a batalha decisiva? Esta ou Aquela? Ou uma terceira que inventaremos? E sem estas decisões, os livros de história seriam fininhos, e quiçá menos aborrecidos.

quarta-feira, 22 de março de 2017

20 de Março de 1952 – Os Vazios Arquivos do Medo

O Conselho dos Dezoito desaparecera. Não desaparecera – fora embora – a deixar dúvidas de quem seriam os dezoito, ou se eram mesmo dezoito os próceres do regime.

O velho governo [pelo seu fechamento e além de um Império que se estendia desde Iquique até os subúrbios orientais de Bucareste] não deixou a tradicional coorte de burocratas arrependidos e de próceres subitamente descobridores do valor da democracia. De fato não deixou nada - de repente as pessoas descobriram que não havia mais a SKQN – a onipresente polícia política. Não descobriram – convenceram-se de que não existia, embora sentissem sua presença.

Após um começo tonitruante [afinal utilizaram tanques para adentrar o Palácio e lá não pouoc encontraram] os próceres do novo regime [se é que pode utilizar esse nome para gente tão indecisa] temiam o que fazer com o poder que tinham. O povo não confiava neles e eles mesmos não confiavam em si [tantos tinham sido os golpes anteriores e que se revelaram farsas armadas pelo Conselho].

Somente hoje tiveram coragem de abrir a sede da velha SKQN. Em vez dos infinitos fichários de inimigos políticos, encontraram, sobre um armário, meia dúzia de pastas desatualizadas e uma cartela meio usada de batalha naval. Os antigos agentes [concluíram para seu próprio alívio] tinham queimado os temidos e completíssimos registros.

Ou [o que era pior] o velho regime nunca tivera esse grande controle. Usava o medo das pessoas contra elas mesmas, e elas confessavam crimes que nunca existiram.

terça-feira, 21 de março de 2017

19 de Março de 1489 – O bebê fundador

De todas as quatro origens do Brasil [sem contar as 95 outras que a tradição e a fantasia se lhe atribuem] apenas uma tem origem lusitana, embora esta [a maior parte dos pesquisadores receia dizer] um tanto exagerada. De fato, o Império do Leste [conhecido na maior parte de seu tempo pelo nome tanto político quanto ingênuo de Concertação Republicano-Demagógica, ou  mais comumente ainda, de Concertação Demagógica] tem várias origens, onde [ao contrário dos três outros Estados que deram origem ao país] a presença do hoje subdesenvolvido continente da Europa [mero fornecedor de trigo e gente para a Sul-América] foi marcante.

E cada país europeu compete hoje, tanto em baixos níveis de produto bruto como em quem seria o fundador do maior país do mundo. Para os portugueses, certo Lopo Lopes teria por aqui aportado na data de hoje, em lugar sujeito a disputa [embora a tese canônica, de que veio ao Sul da Bahia, seja hoje apodada de nada menos que ridícula].

O que se sabe [se é que se pode saber alguma coisa ao certo de uma história tão eivada de lendas e de orgulho nacional] é que o primeiro português nasceu para um Novo Mundo, e essa expressão tem pouco de hiperbólica: Lopo Lopes veio nu, pingando água salgada, sem saber a língua – e portanto, para os tecnologicamente avançadíssimos thupoinambás que o acolheram, parecia um bicho não muito nocivo. [De fato o viram chegar, dos restos de sua barcaça, em seus telescópios].

O primeiro europeu [previsivelmente] foi tratado como bebê.

domingo, 19 de março de 2017

18 de Março de 1937 – Pirão em Berlim

Chamava-se Francisco José Xavier de Sousa e Silva o homem que pôs o pé direito no batente do portão em Berlim., e o até excessivo brasileirismo de seu nome tinha uma razão. A Milícia das Duas Cores [nome que o Conselho dos Dezoito dera então ao exército nacional] o promovera de Operqdor Geral [mais ou menos equivalente a soldado raso] em fevereiro de 1935 [quando a segunda invasão brasileira da Europa mal começara] a Guardião das Supremas Figuras [algo como coronel] na data de hoje. O seu nome explicaria [ao menos em parte] a preferência por ele.

A explicação veio quando as tropas brasileiras [junto com seus aliados occitanos e dalmáticos] entraram na cidade pelo Sul, atravessando o bairro do Mitte e esparramando-se pela rua Kudamm. Souza e Silva encarapitou-se em um carro à testa da coluna, passou pela Siegsäule e, mais por sorte que por plano, ordenou que dobrassem à direita, e um par de centenas de metros depois pareceu materializar-se o Portão, o Brandemburger Tor, na sua frente. Nada alto mas respeitável.

Acontecera – um país do Hemisfério Sul invadira as praias da Europa [depois de um par de anos e muito sacrifício] chegava ao coração do continente. E o chefe de etal façanha tyinha um nome explosivamente brasileiro.Dividida, a cidade caíra quase sem resistência. De fato os berlinenses estavam cansados do regime anterior e viam esses estrangeiros quase como uma curiosa novidade.

No pé do Portão em vez de discurso, disse apenas: que saudade de uma carne de sol com pirão! 

sábado, 18 de março de 2017

17 de Março de 1597 – O Povo Filósofo

Os Mingrélios [supreendentemente citados na seção 10 do Capítulo II do obscuro Ensaio sobre o Entendimento Humano do não menos obscuro inglês John Locke] segundo eles mesmos, não existiam [o que tornaria a efeméride de hoje para celebrar a emancipação de seu ducado como perfeitamente inútil].

Conhecidos [não sem algum exagero] como povo-filósofo, não passavam [possivelmente] de uma meia ou uma dúzia de centenas de pessoas vivendo entre o Bakhthir e o lago Tauridis [nomes obviamente colocados por seus antigos antecessores e amos quirguizes] algo como o Juruena e o Cáceres.

Existiram por pouco tempo [o último deles entregou sua alma melancolicamente em 1726, não sem afirmar que não entregava sua alma porque sua alma não existia – aliás nada existia, e portanto nada podia morrer].

Não foram poucos, na filosofia Azkidi ou francesa ou qualquer outra, que afirmaram que havia dúvidas sobre a existência do mundo. Mas na última hora metafísica, nenhum se aventurara a se jogar no abismo do nada. [Certo Descartes chegou a afirmar que o pensamento implicava a existência – penso, logo existo – um argumento de discutível eficácia.

O povo-filósofo decidiu que nada existia, e portanto eles também não existiam. Evidentemente foram acusados de incoerência, por continuarem a plantar, cozinhar e procriar. Esse drama não deixou nunca de persegui-los, e talvez tenha sido culpado por sua eventual extinção.

sexta-feira, 17 de março de 2017

16 de Março de 1773 – O Primeiro Herói

- Acima  de tudo, não se interesse por mulheres.

- E por que?

- Mulheres o fazem querer viver.

- E isso é mau?

- Para um herói, é.

Esse diálogo [que poucos podem apodar de banal] ocorreu[ninguém se interessou por precisar exatamente onde] entre Coriolano e seu Guia [como todos os guias, um homem mais velho que contava histórias pretensamente sábias].

O primeiro dos heróis verdadeiramente nacionais do Brasil atendia pelo nome estranho e não pouco luso de Coriolano de Guerra-Mattos. Até a primeira metade do século XVIII o Brasil nada mais era que um conglomerado de quatro potentados principais que viviam brigando entre si. Unificaram-se e passaram a brigar com os vizinhos. Reforçaram-se [cerca de um século depois] e o país dele resultante passou a brigar com gente de outros continentes [é esta a visão canônica e anti-imperialista, não pouco contestada].

Acusa-se Coriolano de ser um herói fabricado. A acusação, sem ser falsa, carece de sentido. Pois o rapaz não foi criado como ídolo após sua morte. Seus pais e tios [um deles o Guia] diziam para ele que a família precisava de alguém extraordinário – e o que é extra só se alcança morto. E para a glória eterna é preciso sacrifícios passageiros. Entre eles, nada de garotas.

Um país uno precisa de heróis unos, e o primeiro deles morreu no dia de hoje [transformado em peneira pelas balas do inimigo [como convém a um herói], tentando invadir alguma aldeia perdida na encosta oeste dos Andes. 

quinta-feira, 16 de março de 2017

15 de Março de 1933 – O Improvável Profeta

Aeliano não tinha esse nome – na verdade não possuía nenhuma massa vocabular que o denominasse, até que uma garota resolveu chamá-lo [sem nenhuma razão aparente] por este epíteto de velhos cônsules.

Não usava barba, nem túnica velha a arrastar-se pelo pó [na verdade não usava túnica mas um paletó e gravata, puídos, é verdade, mas dignos]. Não gritava esganiçado nem tinha os olhos injetados. Malgrado todos esses contrapontos, chamaram-no Profeta.

No dia de hoje Aeliano bateu três vezes em uma das sete portas de madeira jacarandá à frente do Escritório Extraordinário, o nome banal em absoluto que significava na verdade o Palácio do Conselho dos Dezoito.

[Os guardas aterrados por sua força interna não tiveram coragem de assá-lo com os lança-chamas nem de picotá-lo com as metralhadoras – assim reza a lenda].

A porta abriu-se e a partir daí as versões se dividem. A mais popular [convenientemente difundida depois da queda do Conselho em 5 de fevereiro de 1952] afirma que o profeta sabia e denunciou a invasão brasileira da Europa [na verdade a segunda invasão, consubstanciada um par de anos depois. Saudosistas do regime do Conselho [compreensivelmente] argumentam que Aeliano aderiu aos propósitos de expansão imperial.

Uma terceira versão o colocou decepcionado com o mundo a vagar pelas estradas. Uma quarta [pretensamente humorística] sustenta que ele se decepcionou sim com os homens, e como represália transformou-se em uma galinha, mas aí também já é gozação demais.

quarta-feira, 15 de março de 2017

14 de Março de 1887 – O Profeta de Boca não muito cordial

Hosana Brandemburgo-Vasconcelos de Siqueira destacou-se [no Regime dos Sete Generais] não por seu curioso nome. [De fato mais coisas além dessas chamariam a atenção nele, a começar do fato de que, dos já mencionados sete, ele não era general, mas Almirante, e também contrariamente a eles, nunca chegou a ter o Poder Supremo – embora tenha chegado perto dele como eminência parda de dois governos].

O Almirante [como a complexidade de seu sobrenome o fazia ser mais conhecido] [e ao contrário de antecessores que não primavam pela lhaneza de trato] tomou posse no estranho cargo Quartelmestre Geral [criado (dizem) especificamente para ele] no dia de hoje, na expectativa de ser um homem de trato finíssimo.

No entanto [e para interesse e decepção dos historiadores] sua coletânea de discursos oficiais está polvilhada de *** e outros sinais para dissimular as palavras pouco recomendáveis que proferia.

O Almirante [para desespero dos que o consideravam um cavalheiro e um pacifista] declarou [quantas vezes para quem quisesse ouvir] que O Problema do Mundo era o Excesso de Gentileza! E continuava Quando quero dizer Idiota, digo Idiota, quando quero dizer Estúpido, digo Estúpido.

E veio a parte delicadamente retirada por assessores Quando quero dizer que dominaremos o Mundo, é porque vamos dominá-lo!

Dizem que o Almirante planejava uma invasão brasileira à Europa, e adormecia sobre mapas a planejá-la. Durante meio século riram dele. Até que o barulho das barcaças de desembarque tirou a graça.

terça-feira, 14 de março de 2017

13 de Março de 1227 – Uma ou duas coisas sobre o Potentado dos Azginya

Os Azginya vieram da África e pouco mais que essa frase [mais declaração de fé que afirmação científica] se sabe sobre eles. Dizem [e temos que confiar no senso comum, por mais enganoso que o mesmo seja] que vieram em sete canoas. O que já conflita com o primeiro nome que a Tradição lhes deu, de Potentado Enengwe ou Azginya [onde o nome inicial acabou por ser esquecido], pois um estado com denominação tão majestática não se poderia apertar em sete barcos, por maiores que eles fossem. [A bem da verdade, certas versões hermenêuticas afirmam que as embarcações não eram sete mas setecentas, o que torna a história obviamente bem mais verossímil].

Sabendo-se muito vagamente seu lugar de origem, ignora-se mais ainda quando chegaram do outro lado do Oceano. Esta data [surpreendentemente exata devido a datações em Carbono 14 de três fragmentos de pegmatita em um lugar com a surrealista denominação de Uruburetama prova que nesta data os Azginya aqui já se encontravam. Quanto ao Rei-Civilizador que os conduziu [que parece sempre existir nas histórias de velhas transmigrações] surpreendentemente se torna ausente na história dos lagurianos [assim também denominados por que, segundo uns poucos, eles vieram da região dos Grandes Lagos].

Falavam de um Rei, chamado Gihanga, que teria lhes conduzido e ensinado a arte da escrita. Ou de cinco outros: Singa, Zigaba, Gesera, Cyaba e Ongera. Melancólicas versões modernas dizem que se tratam de lendas, criadas apenas para não decepcionar arqueólogos.

segunda-feira, 13 de março de 2017

12 de Março de 1509 – A Catedral do Vento

De todos os quatro grandes impérios consagrados na historiografia brasileira o menor [e previsivelmente o menos comentado] é o que se situava mais ao Sul, para lá do paralelo vinte e oito. Com efeito, as três outras potências que dividiam o [hoje] nacional território tinham uma origem que fazia sonhar a contadores de histórias e mocinhas em final de tarde [embora a veracidade das histórias seja (como sempre) posta em questão por alguns desmancha-prazeres].

Uma mescla de náufragos e invasores fracassados europeus com a Cultura Metal-Tupinambara gerara o [um tanto banalmente chamado] Império do Leste, que no seu auge [aproximadamente entre 1573 e 1702] ganhou o pretensioso cognome de Civilização do Amanhecer, ou Civilização Zukhare [um nome que (segundo versões) podia significar tanto projetar-se no Infinito como cuspir, e que teria dado origem ao primeiro nome, em tradução incompetente].

Além desses havia o Magnífico Império Azkidi, oriundo da junção entre invasores Quirguizes e Azginyas, e a Renovação Mandchuriana.

Contrariando esses românticos princípios de história, os habitantes do Sul nada tinham a apresentar que apelasse à imaginação. Nada de grandes cidades. Sua arquitetura [embora sólida] tinha uma característica falta de beleza, se bem que também não se destacasse pela fealdade. Sua religião nâo fazia promessas nem exigia sacrifícios.

O nome de Catedral do Vento, a seu breve reino atribuído, se deve muito mais à falta de algum outro mais adequado.

sábado, 11 de março de 2017

11 de Março de 1881 – Como se faz uma invasão

O General Zarlon Mascarenhas de Bishkek-Mendes orgulhava-se de três coisas: uma, não era general [de fato, fora o primeiro coronel a chegar ao Poder Supremo, favorito que era do falecido Generalíssimo Delgado Salazar, o iniciador da Ditadura]; duas, dos 157 sonetos que publicara em três volumes, desmentindo a fama dos militares do século de serem grosseirões; três [e esse orgulho se devia mais a uma antecipação do futuro] de ter um grupo de assessores que seria mais adequadamente chamado de assessoras [eram todas mulheres].

E foi esse grupo que recebeu [como todos os dias] o Chefe do Supremo Conselho [era esse nome oficial] ao adentrar o Salão do Oriente [era assim que denominava o lugar onde tomava o café da manhã]. Duas ministras lhe perguntaram o que queria. Ele respondeu como quem pensa noutra coisa:
- Quero café. Quero dois pedaços de queijo, não muito.

E continuou sem pausa:

- Também quero invadir a Guiana

e estendeu a mão para pegar a manteiga. As assessoras engoliram papel amassado. Ninguém disse nada.

E desta maneira anedótica [embora nem tanto para os invadidos] começou o Brasil a esparramar-se pelo litoral norte do continente. Tido [compreensivelmente] como odioso imperialista, o Ditador comanda certa simpatia da posteridade por seu apoio ao trabalho fora de casa para as mulheres. Uma versão de que suas assessoras eram apaixonadas por ele é [provavelmente e no entanto] espúria.

sexta-feira, 10 de março de 2017

10 de Março de 1411 – O Nada a Noroeste

Ninguém sabe [e na verdade não se importa] porque o dia dez pôs-se como dia em que se celebra o Lago de los Xarayes [tendo em vista que dele (segundo a lenda) saem 99 afluentes, um número bem pouco semelhante ao do dia. De qualquer forma, mais que o Lago, celebra-se a massa de terra que se situa grosseiramente a noroeste do mesmo, chamada de Platô Zaraye, um nome que se trata obviamente de corruptela.

Cognominado de Deserto por algumas traduções preguiçosas do dialeto Azeri, o Zaraye não pode ser considerado como tal, pois a Noroeste do lago [assim disseram por seis ou sete séculos, e de certa forma o dizem até hoje] não há nada.

Esse Nada consiste em  menos que retórica. Quando se diz que em certo lugar não há nada, geralmente quer-se dizer que não há o que o falante gostaria que houvesse – o farrista quer uma casa de espetáculos; o domo de casa quer uma padaria – e estas não existem, então não há nada.

No Zaraye [por mais que inverossímil que se pudesse parecer] [e segundo os primeiros relatos] esse Nada não incluía roedores, cactos [a forma de vida esperável em um deserto] mas não só eles -  o sol [embora existente] parecia etéreo, e o chão se tornava pastoso [embora de alta temperatura]. O viajante se desesperava, e voltava a correr e queixar-se do Nada, e a dizer pouco sobre ele [afinal, nada se pode dizer sobre Nada].

A Possibilidade de um lugar de Nada absoluto [em vez de desanimar] atiçou os polemistas e criou este dia, do qual ninguém parece saber a razão.

quinta-feira, 9 de março de 2017

9 de Março de 1411 – Os Nus Seios de Helena

Helena-Godiva combatia com os longos cabelos de um preto quase azulado [e tudo o mais] ocultos sob uma armadura de liga de cobre e ferro.

Naquele dia 9 [no entanto e segundo seu único cronista minimamente confiável, o Frei Godofredo Gomide de Tereksay-André] antes da batalha diante dos três muros de sua capital [que tem versões tão variadas de seu nome que de seu nome que os cronistas optaram por escolher nenhuma] a jovem [ninguém lhe dava mais de vinte anos] Helena-Godiva preparou-se em frente a seus soldados.

Nada demais – até que tirou o peitoral de ferro e seus cabelos azulados de tão negros escorregaram a curvear os seios e tatear os bicos quase da mesma cor dos cabelos. O silêncio das tropas era quase palpável, de tão pasmoso o magnífico espetáculo – disse talvez com excessivo entusiasmo o pressuroso frei.

Difícil saber quanto durou o pasmoso e magnífico espetáculo [talvez não mais que uma dúzia de segundos] mas [de qualquer forma] o suficiente para as tropas de seu Império [na verdade e possivelmente pouco mais que um potentadozinho de terceira categoria na boca do rio Teles Pires] reagissem e expulsassem o inimigo para longe, garantindo a independência por muito tempo.

Voltando para as casas e as esposas, os soldados causaram [segundo relatos da época] uma inundação de bebês nove meses e poucos dias depois, o pode dizer mal das esposas, mas muito bem da tal princesa.

quarta-feira, 8 de março de 2017

8 de Março de 1650 – O Eterno Lembrar do Agora

Nós sempre vamos nos lembrar de um dia como esse – e tal frase [que não teve a menor pretensão da poesia ou do consolo] ele a pronunciou baixo, como quem pede um copo d´água. Malgrado isso [assim reza a lenda – talvez um tanto exagerada] pôde ser ouvida por cima de gemidos e orações.

Antônio Tchuka Jinyang completara 50 anos em um ano terminado em 50, em coincidência que não deixou de ter apologistas. Até então lera: clássicos desde as Meditações no Tapajós de Ulisses Talavera até a República de certo Platão. Porém mais que isso, caminhara – sem nunca ultrapassar as fronteiras da terra que depois seria conhecida como Brazylya ou Brasil. Conhecera os Quatro Impérios, as Sete Dissidências e os Noventa e Nove Desertos, como não cessam de repetir os adeptos da numerologia.

No entanto não encontrou o que queria – talvez porque não procurasse nada.

Até que esbarrou nas muralhas de uma cidade [segundo a maioria, nas margens do leito velho do Alto Tocantins, embora esta seja apenas uma das 13 ou 17 versões a respeito]. Estava tomada pela peste. Considerando-o louco, deixaram-no entrar. Pediu para ver o hospital. Considerando-o mais louco ainda, deixaram-no de novo. Viu o sofrimento.

Pronunciou sua frase.

E com base nela construiu sua filosofia – uma concentração do ser, do mundo, de tudo em um ponto só – o momento do agora. Para o Patrono da Filosofia Brasileira, só existe o agora, e quem vive agora, vive para sempre. 

terça-feira, 7 de março de 2017

7 de Março de 2007 – Os Nerds tomam o Poder

Começou precisamente às 5:33 da manhã [e esse (dizem) foi o único sacrifício empreendido pelos golpistas, para quem acordar antes das dez era irremediavelmente madrugar]. Um aviso expedido para as agências de notícias falava em grandes movimentos populares para substituição do governo. 22 minutos depois o Presidente da República veio em cadeia nacional renunciar a seu cargo, obedecendo ao clamor das ruas. Os comandos militares receberam ordens ultrassecretas, acompanhados das senhas corretas de movimento de tropas, ordenando que deveriam obedecer prontamente ao novo governo, e que todos os generais já tinham jurado lealdade ao novo Regime, o que foi confirmado por mensagens em código. Mensagens de apoio dos maiores artistas e pensadores garantiram que o Novo Regime era sólido. Ao final do dia um programador com o banal nome de Guilherme Silveira Teles [o Guilherme Gates Jobs] assumiu o poder. Tinha 39 anos.

E era um ancião. Atrás dele [e ninguém notou] pontificavam adolescentes sardentos fanáticos por jogos RPG, garotas gordinhas com óculos de fundo de garrafa e colecionadores de mangás.

Descobriram que tanques e balas são desnecessários para quem sabe plantar notícias, quebrar senhas e criar simuladores de vozes melhores que as reais.

Em uma única concessão ao regime anterior escolheram um trintão para fachada. Decretaram os Videogames como Patrimônio Tombado Inalienável Nacional.

O Brasil se tornava o primeiro país do mundo a ter um golpe de estado feito por nerds.

segunda-feira, 6 de março de 2017

6 de Março de 1477 – O Bem Pouco Provável Começo do Reino Azkidi

O ano é bem certo, mas nenhuma pesquisa seria capaz de determinar por que o dia de hoje foi escolhido para celebrar as bodas da Mulher-Primeira [título oficial da Rainha dos Timur] Atake Tynay Ulu com o Rei dos Azginya, Zigaba-Enegwe. A rainha não era jovem. O Rei estava no vigor dos seus vinte. Ambos já tinham cônjuges, mas não importava – foram repudiados para a realização das bodas, das quais uma dúzia de teorias arqueológicas tentou sem sucesso localizar o lugar, desde as cercanias da atual Araguaína até a ponta do encontro do Solimões com o Negro.

Os Timures [ou Bishkekes] já tinham esquecido seu idioma quirguiz que seus antepassados falavam quando atravessarem o Pacífico. Quando aos africanos Azginya, nenhuma teoria explicou satisfatoriamente sua vinda.

O mais humano seria os dois povos tão diversos começaram a se matar. Tal não aconteceu. Também não fizeram uma mistura lenta e difícil. Os principais dos dois lados decidiram que cada homem de cada grupo casaria com uma mulher do outro grupo, e vice-versa, quer quisessem, quer não. Os casamentos anteriores seriam simplesmente desfeitos. E para calar possíveis críticas, os próprios Rei e Rainha casariam entre eles.

Esperaram os filhos.

No espaço de uma geração surgiu um novo povo, que se deu o nome de Azkidi. No seu apogeu o Reino dos Azkidi espalhou-se dos Andes até a margem do depois chamado rio Tocantins.

A união dos dois mais antigos Estados no território nacional pode ser exemplo de pacificação, nunca de democracia.

domingo, 5 de março de 2017

5 de Março de 1739 – Viva a Selva e Morram os Fracos

O Último Herói do Potentado dos Xarayes [um dos quatro grandes reinos que por três séculos e um sétimo guerrearam pelo território nacional] desapareceu hoje à beira do Lago que deu nome ao seu Estado [o Lago dos Xarayes]. De suas tropas, metade se tinha vergonhosamente vendido ao inimigo, e o restante fizera dispersão pelas matas ou para os massacres.

De nome previsivelmente mestiço, José Amunir de Shinkiang-Souza pouco tinha de heroico [dizem os testemunhos das únicas sete pessoas que o conheceram com alguma proximidade]. A começar da estatura abaixo de um e sessenta e da discreta gagueira.

O último dos guerreiros da Renovação Mandchuriana [o Império dos descendentes de migrantes orientais na Sul-América] destacava-se apenas por sua enorme coerência. Todos os profetas da violência só o são porque se encontram em posição de força: os fortes justificam o uso da força, os fracos apregoam as virtudes do Pacifismo.

Shinkiang-Souza decididamente não era forte: quando assumiu o comendo das tropas, seu Reino estava resumido a um semicírculo apertado entre o alicate da Irmandade do Parime [que atacava pelo Norte] e o Exarcado dos Pretorianos, a tropa dissidente que o envolvera pelo Sudoeste.

Em seu último discurso [repetido em seis dos sete testemunhos] o herói baixinho de olhos puxados declarou que a Força é o Direito, e sua frase mais citada [embora não exatamente de forma literal] foi Viva a Selva e Morram os Fracos.

O último herói desapareceu na última batalha.

sábado, 4 de março de 2017

4 de Março de 1885 – Chaminés invadem o Parnaíba

Vejo o Novo Mundo/Cidades a lançar tentáculos/Poemas em forma de vigas/E em seiscentos quilômetros de fuligem/Vi apenas uma flor/da qual tirei ferrugem - Margarida Aristóteles de Morais-Virgílio partiu hoje [não por coincidência o dia de seu 37º aniversário] da pontinha sul do rio Parnaíba [que ainda era por muitos conhecido por rio Mingkush, nome colocado pelos antigos colonos quirguizes] para o Mar.

A mais aventurosa de todas as poetisas brasileiras não parecia ter vocação para o extraordinário. Seu pai o Marechal Morais-Virgílio fora um vice-presidente da Ditadura dos Sete Generais, e a filha parecia destinada a tocar piano e ser boneca de algum milionário do Vale do Metal.

Tomou uma roupa de aniagem, um par de pistolas [filha de militar, sabia o que fazer com elas], maquiou-se de mendiga ou de funcionária da alfândega [conforme às circunstâncias] e [em grande parte do caminho a acompanhar uma troupe de saltimbancos] desceu o grande rio.

Espantou-se. A província do Piauí [e sua vizinha] tinham se tornado em vinte anos o maior polo siderúrgico do mundo. Tropas de trabalhadores revezavam-se dias e madrugadas a fazer latas e canhões.

Onde tomos viam progresso, Margarida Morais-Virgílio via fuligem.

Escreveu [às noites na carroça dos saltimbancos] os 3.766 versos do seu Mar de Chaminés. De fato, era essa a paisagem que se via na maior parte do Vale. Seu livro foi combatido pelos assim chamados adepto do progresso.

Hoje os ecologistas a veem como precursora.

sexta-feira, 3 de março de 2017

3 de Março de 1905 – Da Inexistência do Carnaval Brasileiro

Não se pode dizer [e com justiça ninguém o diz] que Flavius Tarquinius de Araújo da Matta-André não se tenha esforçado. O mais fracassado de todos os inovadores brasileiros rejeitou a metalurgia [tradicionalíssima ocupação de uma família obcecada por vergalhões e trilhos de ferro gusa] e se tornou homem da antropologia. E partiu para o Mundo.

Voltou cheio de ideias, e não só com elas – trouxe arcas de roupas coloridas, plumas, manuais de dança, instrumentos de percussão e partituras. Mais que isso, trouxe um conceito novo – que elaborara aos poucos, em lugares tão distintos quanto Veneza e Enugu, na Nigéria. Marcou conferência no Teatro Central do Estado [o novo regime civil queria provar que era sério, daí a sobriedade do nome].

E naquele dia 3 disse que o Povo Brasileiro caminhava para ser o mais poderoso do mundo. Mas o Poder não era tudo. E queria transformá-lo também em um povo alegre. Como não tínhamos festas, resolveu trazê-las de outros países – juntou enfeites da Itália, melodias do Sul da França, ritmos da África, enredos da Arábia e enfeixou tudo com uma esquecida festa do tempo do Império Romano, criada para comemorar o Deus Baco, com muita comilança de carne. Propôs a grande festa brasileira.

A Plateia não o vaiou. Ouviram-se até aplausos. O apupo foi o pior possível – ignoraram-no. Flavius Tarquinius voltou a malhar aço vanadiado e morreu desgostoso com tudo e com o povo.

E é por isso que o brasileiro, o povo maois poderoso do mundo, não tem Carnaval.

quinta-feira, 2 de março de 2017

2 de Março de 1865 – O Heroico Traidor

Dom José Nuñez Vasconcelos de Menéndez-Balboa sentou-se no dia de hoje em mesa de muitos metros de jacarandá e muitas casacas e dignitários em volta, em algum lugar na cidade de Santana, o banal nome da Capital da América do Leste [nome pelo qual era então conhecido o Brasil].

Não tinha a aparência majestática que seu nome lhe dava. Na verdade não passava dos 23 anos. Com muito custo conseguira uma audiência com os maiorais do Regime brasileiro vigente deste 1859, apelidado [não sem injustiça] como Governança do Medo pelos Generais que inaugurariam o Sistema ditatorial apenas 12 anos depois.

Señores [principiou ele a lutar contra fortíssimo sotaque] nós chegamos ao Oceano Pacífico em 1803. Nós fomos expulsos de lá.

A plateia de barbichas encolheu – ele não era do outro lado?

Volveremos, señores! – e os próceres entenderam. Era um traidor. Propunha-se a entregar seu país e os vizinhos para o Brasil conquistá-los.  Cada Ministro e Comendador especulou se ele queria dinheiro, um vice-consulado, ou ambos.

Nunca chegaram a sabê-lo. Na batalha de Tangali as lanças de seu próprio país o cobriram de ferimentos, e por três vezes animou os batalhões roraimenses que perigavam recuar, mostrando mais bravura que os conquistadores.

Na versão canônica morreu e não foi mais encontrado. Uma história popular nas cercanias do Monte Imbabura o tem velhinho a cuidar de viúvas e órfãos.

Nas cercanias o consideram santo.

quarta-feira, 1 de março de 2017

1 de Março de 1904 – Os muitos Passados dos Neo-Agadés

Das dezessete versões sobre a origem dos Eskualdualks ou Neo-Agadés, apenas duas ganharam o selo de alguma verossimilhança. De fato, pouco se sabe sobre a pequena comunidade espremida entre as bordas de dois impérios lá entre os séculos XVI e XVII. E isso [ao contrário do que se poderia adivinhar] não se deve a uma falta de fontes, papéis rasgados, etc., mas a um excesso delas. De fato, os historiadores beiram a esquizofrenia diante dos Completos Registros de Reis, encontrados ao lado e outros papéis atestando que os Agadés eram uma República; das lamentações sobre cruéis batalhas que, segundo pedras comemorativas logo ao lado, nunca existiram.

A origem de tal povo [é claro] também não poderiam deixar de ser objeto de relatos conflitantes. Nada menos que 89 papiros foram encontrados afirmando que vieram de algum lugar do Norte da atual Espanha, em canoas de caniços amarrados. E essa era a versão geralmente aceita, até que escavações desenterraram 139 outros, narrando com detalhes uma origem do centro do Deserto do Saara, do qual teriam vindo em algum canto dos barcos dos Azginya, posteriores fundadores do Reino Azkidi que dominou quase todo o Norte do País.

E sobre as razões de tal conduta maluca, há também duas versões. A primeira era que os Agadés primavam pelo reconhecimento do acaso como rei da vida, e tiravam a sorte para tudo, inclusive para o seu passado, que mudavam constantemente.

A segunda versão era que eram grandes gozadores, e fizeram essas versões contraditórias só para tirar sarro com a cara de nós, seus pósteros.