segunda-feira, 27 de março de 2017

22 de Março de 2002 – A Nerd que abalou o Mundo

Maria Rosita engoliu seu penúltimo pedaço de churros encharcado de leite condensado [antes de se voltar para o sorvete de flocos de chocolate] que constituía o seu café matinal pouco depois das cinco e meia neste dia de hoje. Dormia cedo, acordava cedo e detestava seu nome. Aliás detestava tudo: os dezessete quilos a mais, a mãe cuja finalidade existencial parecia ser dar-lhe carões cotidianos, o pai que decidira ignorar que ela existia, as outras meninas na escola com seus cabelos uniformizados com escovas-penteado que davam na cintura.

Seu único consolo [se é que se pode chamar isso de consolo] eram os amiguinhos da escola – gamers, gordinhos e [contrariamente a ela] sardentos.

Exatamente às seis e vinte e um [a cama estava particularmente grudenta hoje] meditou:

Percebeu que o Poder é real [com seus soldados, fuzis e cédulas de dinheiro] mas sua coordenação é toda não-real – as ordens são passadas por sinais elétricos para satélites, as decisões se baseiam em informações de algoritmos matematizados em placas de circuitos integrados]. Alguns desses sistemas já tinham sido hackeados, com nível de brincadeira maior ou menor.

Pensou: E se alguém interferisse em todos os sistemas, todos ao mesmo tempo?

E naquela cama uma adolescente acima do peso [em duas folhas de papel hoje expostas em museu] começou a elaborar o esquema que cinco anos depois daria origem ao Regime Unificante Regenerativo [na gíria conhecido como Nerd Power] o único regime político do mundo controlado por Nerds.

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