quarta-feira, 29 de março de 2017

24 de Março de 1946 – Tantos erros na cidade

Alguém [não se sabe se o poder supremo] idealizara que a comemoração do Momento Zero devia concretizar-se em 99 vezes 99 festas pelo país inteiro, e esse número sem sentido [foi o que ela falou, o que não lhe deixou de criar problemas com os vizinhos e a SKQN, a Polícia Política] aconteceria a partir do momento em que o quadro com o Produto Bruto mostrasse que o país ultrapassara a qualquer outro, consolidando sua liderança.

- Boboquice idiota para uma Idiotice – escreveu ela em sua coluna que os leitores rasgariam.

Os poetas e principalmente poetisas exaltavam as virtudes campestres, os amores candentes e o heroísmo dos ancestrais. Iúlia Bessa Pessoa-Luís percebia as chaminés que se espalhavam desde o Vale das Siderúrgicas no Vale do rio Gurguéia até as fábricas de pano em volta dos chapadões do Paranapanema. E mais que isso, caminhava em meio às multidões que madrugavam atendendo aos apitos de atender ao trabalho, em galpões ou escritórios-cânions.

Não escrevia coisas de poeta e não parecia uma. Completara cinquenta e mesmo quando jovem nunca fizera o tipo virgem clorótica. As paixões eternas lhe pareciam menos cantáveis que uma garrafa de ácido quebrada ou uma briga de bar [entre operários no meio dos quais vivia e se inspirava].

Agora Iúlia ganhava a honra de figurar no listão de Pessoas Possivelmente Trágicas [era esse mesmo o ridículo nome dado aos inimigos do Regime].

Tantos erros na cidade ­­– disse, e o país percebeu que se tornara urbano. 

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