sexta-feira, 5 de maio de 2017

17 de Abril de 2739 – A Primeira Nova Brasileira

Deng Xin-Yang Makolu-Silveira mediu a antiga latitude 22 graus, 7 minutos e alguma coisa contra uma longitude de 50 e algo exatamente no dia em que completou 109 anos de idade. Tudo isso era antigo – fustigado por mudanças magnéticas de origem antropocênica, o planeta mudara de eixo em 2341 (no velho calendário) e as medidas de localização geográfica se tornaram objeto de saudosismo. E alguns séculos antes uma mulher de 109 anos disputaria duvidosas honras em livros de recordes – mas depois de cair drasticamente, a média de idade já batia os 180 – e Deng Xin-Yang Makolu-Silveira pouco mais era que uma adolescente.

Uma adolescente curiosa – na tranche de reprodução na qual nascera [e na qual recebeu inicialmente o número 78593-98-3] percebeu que seu nome [quando a ele foi oficialmente apresentada, aos 33 anos] tinha um Silveira pouco mais que ininteligível. Até que sua persistência a fez descobrir que [para além dos sete desertos a partir do paralelo 22 norte e das duas grandes enseadas surgidas após o rebaixamento do nível dos oceanos em 2677] houvera uma terra da qual seu sobrenome era nativo.

Por isso uma adolescente chamada Deng Xin-Yang Makolu-Silveira mediu a latitude e longitude em velhos instrumentos e verificou que [após dez séculos de degradação] aos poucos as plantas ressurgiam. Olhou em volta – não havia ninguém. Construiu uma cabana. Fantasiou que, naquela terra, construiria um novo país chamado Brasil.

E jurou que desta vez iria dar certo.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

16 de Abril de 1900 – O Grande Tratado da Inexistência do Brasil

Um grupo [sendo talvez por demais grandiloquente chamá-lo de anônimo] publicou o grande tratado da inexistência do Brasil na data de hoje em meia dúzia de gráficas [também sendo por demais chamá-las clandestinas] espalhadas pelo país.

Trata-se de leitura que se pode denominar sem muita dificuldade de deprimente. O livro [na verdade uma coletânea de capítulos de autores diversos, o que se denuncia nos seus múltiplos estilos] se constitui em longa e decepcionada peroração sobre um país que maltrata seus habitantes e caminha para uma longa irrelevância, da qual [na verdade] nunca saiu. Mais do que raiva, o livro transparece mágoa. Um desânimo de vida e de lugar.

O capítulo com o significativo nome de Por que se um Tsunami ligasse direto o Atlântico e o Pacífico ninguém notaria muito a diferença [do qual ninguém sabe exatamente quem escreveu, mas apenas que se trata de uma mulher, pelos pronomes pessoais] imagina uma tragédia marítima a apagar o caminho entre um oceano e outro. Compara os feitos nas área de filosofia, artes e ciências entre essas terras e outras, e pondera que [exceção de alguns poucos nomes isolados] aqui não se produziu grande coisa.

Uma frase enigmática ao final do livro diz que Quem escreveu isso fui eu.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

15 de Abril de 1411 – A Grande Enciclopédia

O Magnífico Império Azkidi [que, a bem da verdade, somente no futuro teria tão grandiloquente denominação] já o era [no entanto] suficientemente ambicioso para hoje [em antecipação à sua própria unificação e existência] começar a compor o primeiro volume de sua Catalogação de Todo o Conhecimento [nome provisório] que acabou por ser conhecida por Larguíssima Enciclopédia das Sensações, Reflexões e Sentimentos, ou simplesmente Grande Enciclopédia Azkidi.

[De fato, e os apologistas do velho Império não cessam de lembrá-lo, exatamente no dia anterior três azkidis tinham realizado a primeira composição minimamente decente com tipos móveis – e o fato de que logo no dia seguinte o Conselho Informal do futuro Império tenha decidido pela publicação de uma enciclopédia mostra seu esclarecimento e amor pela cultura – embora tal elogio seja por vezes acusado de saudosismo].

Referida Obra [na verdade e apesar da respeitabilidade concedida pelos anos e pela literatura apologética] contém passagens [na verdade não poucas] em que se afirmam concepções que uma apreciação mais firme consideraria pouco compatíveis com a observação empírica – e isso é uma maneira de dizer que continha rematadas bobagens.

Sete séculos depois páginas da Grande Obra voavam por alguns restos de mata lá no rio Teles Pires – se alguém reparou, ninguém soube.

terça-feira, 2 de maio de 2017

14 de Abril de 2277 – O Último Brasileiro

Escrevo à beira de uma janela arrebentada no alto de um dos sete últimos prédios ainda em pé no centro do que se chamava antigamente cidade de São Paulo. Tenho catorze anos e já sou e pareço um velho. As mutações histológicas oriundas de da poluição pela radioatividade e amônia podem ter a ver com isso. Escrevo à mão – uma arte antiga que nunca aprendi. Não há mais ninguém na cidade. Nem em um raio de cinco mil quilômetros.

Escrevo e ninguém me entende – e isso não é figura romântica de retórica. Ninguém entende mais a língua portuguesa. É também muito pouco provável que algum humano volte a habitar essas terras. Somente nas faixas mais frias ao Norte ainda se encontram pessoas, mas eu, para dar testemunho do que se passou e na falta de algum transporte confiável, ficarei aqui.

Foi rápido. As árvores viraram arbustos, os arbustos nada. As guerras civis, a incapacidade de entendimento, a teima em velhos problemas no lugar de novas soluções – e chegamos aqui. Sou o último.

Não tenha pena, você que nunca lerá. Sou mau, mesquinho. Nunca cuidei do que é meu. Essa não é hora de parecer bom, ou vítima. Nunca pensei por minha própria cabeça. Fui servil, imitador, incoerente. Sempre preferi matar galinhas a pacientemente esperar os ovos. E aqui estou.

Não sou o retrato de nada. Na verdade não sou nada. Os humanos vieram para esse mundo. Os humanos não deram certo nesse pedaço de mundo. É simples. Não deixa de dar uma certa vontade de inútil chorar.