quarta-feira, 21 de junho de 2017

27 de Abril de 1900 – O Dia em que reconheci que sou falível

Dara Osh-Tashkent [seu nome constituía longínqua ressonância de antepassados quirguizes] aos 22 anos fazia o que devia [e sempre fizera o que devera]: boa filha, boa vizinha, boa estudante, boa colega. Sua vida mudou na data de hoje  por causa de um copo de água.

Não metafórico – real. A jovem Dara arrumou a casa [como sempre] e saiu para dar suas aulas. Filha perfeita, arrumava tudo perfeito – e era louvada por isso.

Retornou e viu um copo – cheio d´água, bem no centro da mesa.

Ninguém tocara lá. Era fora a última a sair, a primeira a chegar. Deixara tudo como deveria, e como sempre. Não deveria ter um copo d´água lá. Mas havia.

Não era obra de Deus. Era ela mesma. Ela não enxergara o óbvio. Ela era falível.

A partir daí Dara Osh-Tashkent [que por questão de simplicidade passou a ser conhecida como Dara Osh] passou a cruzar o país [e as possessões o Brasil Grande conquistava] a cometer erros: dava dinheiro a famintos que iam [na verdade] bebê-lo de álcool, dava pão a quem na verdade o vendia, construía casas que servia apenas para serem depenadas por quem não queira morar lá.

Não se arrependia de que fazia – embora reconhecesse que eram erros. Com o tempo nem se importava se eram erros ou acertos – eram, e era o que importava. Não pensava em Deus – nem na bondade – fazia e errava – não necessariamente nessa ordem. Não era ateia – simplesmente não se importava.

O Brasil [país único] tornou-se o único país a ter uma santa falível – e que não tinha a menor vergonha disso.

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