quarta-feira, 28 de junho de 2017

30 de Abril de 1961 – O Último Crime

Sabe-se que o Brasil é o país mais pacífico do mundo. Sabe-se [e brinca-se] que se trata do único lugar em que se podem esquecer barras de ouro em um banco de praça e no dia seguinte as barras estarão lá [e nesse ínterim não foram trocadas por barras de ouro dos tolos – assim continua a brincadeira – a qual nunca passou por comprovação prática].

Esta boa fama começou [e isso não se sabe] com um crime. Na verdade o último crime registrado na cidade de Cuiabá – que foi a primeira grande cidade a despedir-se desta estúpida prática humana.

Não foi [forçoso é reconhecê-lo] crime. Mas uma despedida da vida, de fato uma desistência dela. Protagonizou-a certo Casimiro Dias Gonçalves Abreu, e seu nome [casualmente a junção de dois poetas] parece tê-lo predisposto a uma vida romântica. Cometera dois livros [um de sonetos alexandrinos e outros de trovas] recebidos com certa indiferença pela crítica cuiabana. [De fato considerou esse fato alvissareiro, pois a leitura de biografias de literatos o convencera de que o fracasso em vida sinaliza o sucesso após ela]. Vestia-se de terno branco [já fora de moda] com flor vermelha na lapela. Faltava [no entanto] morrer por amor.

Procurou Elvira, Maria Clara e Helena Teresa, e todas defeitos tinham: muito gordas, muito magras, muito práticas, muito felizes, muito alguma coisa. Nenhuma era candidata a musa perfeita de um bardo desditoso.

Dizem que foi exatamente a falta de musa que o fez jogar-se nas águas claras do rio Paraguai às 6:22 da manhã.

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